"O meu nome é José e nesta desventura prefaciadora apresento-lhe,
caro leitor, o que escreveu este livro. Desde novo se desinteressou pelas
letras, vivendo no meio delas. Antes mais se arriscava em ágeis, e
muitas vezes desastradas, subidas a árvores e penedos. Daí que
sua mãe o alcunhasse de "espalha-brasas", decerto inspirada
na transmontana lareira que a abrigou, até que se fez mulher casada
no Porto.
Mais velho de três irmãos, prometeu a seu pai, absorto comerciante
de velhos livros, que haveria de ser ou aviador ou médico. Hoje, com
44 anos, detesta o pouco espaço que lhe estaria destinado na primeira
escolha e recolhe-se na prestação de cuidados de clÌnica
geral àqueles que acham que sim. Apesar de tudo, mantém-se-lhe
a sensação de vertigem no vôo e a insegurança na
aterrissagem em aeroporto de fracos recursos.
Casado e com uma filha que já se vai desenhando a si mesma, libera-se
extremosamente em paixões como as de ouvir música ou ler e,
sempre, arriscar o amor e a amizade que tolerantes eleitos lhe concedem.
E como começou ele a escrever? Escrevinhando cartas. Através
da epistolografia, durante dez descontínuos anos de vida na ilha Terceira,
foi rebocando para junto de si a parte que lhe cabe, enquanto luso, da ibérica
"jangada". Mas cuida que foi entre ilhéus que descobriu o
jogo dentro das palavras faladas, tão caro a essa só e, portanto,
relacional gente. E grato que lhes é. Do falar ao escrever, quis ludibriar
o real e desfazer regras, pelo que dispensa o leitor da consulta de qualquer
manual de instruções. Assim haja paciência e quem ache
que sim."